domingo, 10 de junho de 2012
Lindo texto de Fernanda Young.
( Quando li este pequeno conto me senti obrigada a reparti-lo, é lindo é mágico, aproveitem)
O PEDIDO.
“Oh, como sonhei coisas impossíveis”
William Blake.
Voar não era, nem jamais havia sido um privilégio. Poderia mesmo ser considerado desventura, já que machos nascidos com asas teriam de trabalhar como atravessadores. Levando cargas e passageiros, de um canto a outro onde houvesse água. E apenas sobre águas os homens-pásaros poderiam voar, proibidos terminantemente de passar por cima da terra, pois a terra, todos sabiam foi feita para se caminhar. Não era, contudo, um emprego assim tão ruim, havia piores. E, como asas em homens já não causavam susto algum, muitos deles chegavam a constituir família, alcançando uma vida normal.
Ugli não era um homem –passaro desses, descendia de outra linhagem. Família paterna de camponeses saudáveis. A materna, uma gente de pés e mãos grandes, com uns rostos bochechudos, que pareciam ter nascido já lanhados de sol. Antes de Ugli, outras cinco crianças se espremiam pela casa, todas fortes e bem desenvolvidas. E, para espanto de todos, esse sexto bebe, um lindo bebe, tinha vindo com asas. Seu pai, homem de origem rude, demorou poucos instantes para concluir-se desonrando e traído. Expulsando a mulher de casa, junto com a criança. A criança alada.
Que ainda estava em seus braços, numa beira de estrada, quando ela foi achada sem vida, vitima do parto difícil. O recém - nascido foi encaminhado para uma família de homens-passaros da região e desde a mais tenra infância, treinado para cumprir o seu dever, Antes de completar 12 anos, Ugli teria atravessado os mais longos rios, oceanos e tormentosas quedas-d’água. Cresceu rápido demais por isso tornando-se um jovem serio e encurvado. Com um tipo de tristeza que lhe deu olhos constantemente chorosos. A ponto de dizerem que toda aquela água, que ele havia atravessado, vivia morna, represada em seu olhar profundo.
Fez-se um homem adulto sem que essa melancolia o largasse. Talvez a compreensão do próprio abandono tenha feito dele um ser solitário. Vivia para o trabalho, do qual não se queixava, mas pode ser que voar para Ugli, fosse exercitar a memória do desprezo. E, como não conhecia qualquer afeto, nem aquilo que o envolve, nunca teve amigos para dividir sua dor, nem vontade de casar, nem razão para sorrir.
Um dia,certo dia, acordou antes do amanhecer, como de costume, e caminhou os 11 quilômetros, que separavam sua cabana do rio onde trabalhava, mais rápido que de costume.Lá chegando, vestiu a leve túnica bege, presente de seus pais adotivos, e ficou como sempre ficava a esperar por acontecimentos.Sentia, porem, algo de diferente. Era um dia chuvoso, com um vento frio -mas Ugli estava acostumado a enfrentar tempos ruins, mesmo tempestades, era por esse motivo, considerado o melhor atravessador de toda a área. Não se abalou, portanto quando avistou a enorme comitiva que se aproximava, em pomposa lentidão. Nomeio dela, impondo a ela sua cadencia, vinha um homem bem velho. Talvez o mais velho que Ugli já havia visto. Parecia um papel amassado, de tão magro e enrugado. Seus cabelos e barba, longos, intensamente brancos, eram o que mais parecia pesar em se frágil corpo. De fortes, realmente, só os olhos, vivos, brilhantes, a espelhar enorme sabedoria. Ugli estava certo, tratava-se de um sábio. Foi informado por um dos servos de que ali se encontrava o mais velho homem do mundo, possuidor de poderes nunca explicados. E que, se Ugli, ao transportá-lo, o deixasse cair, ou sofrer qualquer espécie de dano, por menor que fosse um arranhão que fosse ele iria morrer. Ele, Ugli. Mas se, ao contrario, o ancião alcançasse a outra margem do rio sem que lhe chegasse sequer uma gota de água no rosto, o homem-pássaro poderia pedir o que bem quisesse. Por maior ou mais impossível que fosse o pedido, seria realizado imediatamente. Ugli não disse nada, apenas ofereceu as costas, como oferecia aos demais passageiros. Foi quando ouviu pela única vez a fraca voz do velho.
_ Tens certeza de que queres me levar? Se não o quiseres, nada lhe acontecerá.
- Pode subir.
Abriu suas asas com vigor, deixando claro que, para el, não havia o que temer. Este era o seu trabalho, aquilo que fez a vida inteira. Estava com 35 anos, a grande maioria deles passara voando, em que ocorresse um acidente. Não poderia, contudo, deixar de estar um tanto apreensivo. Não pela possibilidade da morte – não amava a vida o suficiente para tornar-se um covarde. Seu nervosismo vinha da dúvida sobre qual pedido fazer. ”Nunca mais voar, ficar livre destas malditas asas.” Este, seu primeiro pensamento, seguido por vários outros, dentre eles rever a verdadeira família e ser por ela aceito. Pensou até em qual seria sue desejo mais intimo, aquele que jamais pediria. “Amar, amar algo ou alguém, não sou capaz de amar”. O velho terminou de ser afivelado em suas costas, com três largos cinturões de couro, e Ugli não conseguia decidir o pedido da outra margem.Bateu asas sem decidir, deixando o chão com incomum olhar pensativo, e logo sentiu aquele enorme peso.”Como um velho tão magro pode pesar mais que um touro? Já transportei touros muito mais leves!” Ugli entendeu que o velho pesava de tanta sabedoria, e que sua mente carregada era sem dúvida a carga que mais lhe havia doido nos ombros. Atingindo metade do rio, viu-se, suando, com as gotas escorrendo por todo o corpo, e a túnica ficando encharcada, e seus olhos deixando escorrer lágrimas de dor. Sentia os gordos pingos brotando e despencando lá embaixo, os músculos todos ardendo, os pulmões clamando por mais oxigênio. E dessa maneira, ofegante, exaurido, quase entregue, sem que pensasse, o pedido que faria lhe veio a mente. Tão clara e fortemente que fez Ugli prosseguir, quando tudo já parecia perdido. Bateu as asas com vontade, ganhou altura e continuou seu percurso em rumo certeiro. A certeza do que queria era a força de que precisava, ele, enfim, compreendeu. Restava-lhe ainda boa parte da travessia, mas Ugli sentia que poderia agora fazê-la novamente, e quantas vezes fossem necessárias.
Percebia o seu corpo invadido por uma motivação estranha, algo que traduzia como felicidade. Se a felicidade pode ser brutal, a dele foi.
Erguia com decisão sua cabeça, empurrava sua alma esparsa pelo caminho em frente. Aquela vida, a reles vida, era de súbito alo diferente, e ele a desejava por inteiro.
O velho, através da pele enrugada, das vias saltadas, dos ossos cansados, tinha escutado o pedido de Ugli, Sem que ele precisasse dizer uma palavra.
E estava cumprindo a sua parte do trato. Quando os dois chegaram ao outro lado, o Ugli que tocou o solo não tinha mais os olhos de quem quer chorar. Havia sido presenteado com o esquecimento.
sábado, 9 de junho de 2012
O novo revestido do gasto.
![]() |
| Helmut Newton |
Terá o amor o poder de renovar-se?
Se hoje nesta data sem nenhum significado vc acaba-se de me conhecer,
Como vc me veria?
Se nós pudéssemos não conhecer as mazelas que o passado nos imprimiu do dia a dia, se de uma maneira absurda e louca pudéssemos esquecer a dor que nos causamos seria o teu olhar limpo para mim agora?
Se nós nada soubéssemos, gostos, manias, maneira de ser, traços marcantes de personalidade, se fossemos nos descobrindo de novo e de forma nova, como seria o amor agora?
A alma selada de mágoas passadas, o peito aberto ao novo como uma aventura fascinante e vertiginosa.
Teríamos encontrado o amor novamente?
Ah, consciência maldita e inteligente, que não escolhi para mim que me cutuca e diz: mas e o bom do passado? Deixaríamos para trás todos os momentos mágicos, todos os momentos importantes em que estávamos lá, juntos, às vezes mudos na dor, ou na alegria, mas juntos?Os sorrisos em momentos exatos, a frase dita no milésimo de segundo que não volta, pois já será diferente....
Teríamos coragem de abandonar tudo isto?
E como seria esse amor que no fundo sabe do outro?
Seria mais sereno, mais sábio ou mais tresloucado e apaixonado?
Não pensar no futuro enfim, apoiando aos novos filósofos, vivendo somente o presente sem que o passado tenha seu peso nas ações de hoje, teríamos menos medo de sermos nós mesmos?
Muitas perguntas e uma expectativa à frente, ironicamente uma perspectiva que só tem a opção do presente e do futuro.
Minha consciência castradora de poesia me diria: não me traga perguntas e sim respostas.
E escrava dessa consciência megera eu a responderia:
Eu acredito. Sim eu acredito na renovação do amor, até por que seria hipócrita não acreditar, sendo eu um ser que ama o novo, mesmo que o novo já seja revestido do gasto.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Mente versus coração.
Escrevi na minha mente este enigma decorado.
Digo decorado, pois quando escrevo-pensando parece que sai melhor do que quando realmente escrevo, então quando escrevo-pensando eu fico revisando e repassando pra ver se sai bom no escrever-escrever, nunca sai igual, minha cabeça escreve melhor que minhas mãos.
Uma divisão doente acontece no meu eu.
Duas partes se digladiam ferozmente.
Minha mente e meu coração.
Minha mente e sua defesa:
(em voz de desespero, aos soluços chorando, por que não existe mais argumento com meu coração):
“Não faça isso! Eu te peço... vc só vai fazer sofrer de novo, que egoísta vc é!
Vc não pensa na dor do outro? O quanto vc já causou de angustia, medo, dor, dor, dor...
Vc não merece nem um pequeno pensamento,
um cheiro, um gosto, um pedaço de papel com uma flor desejada lindamente... A vc agora somente sobrou à morte lembra? Por que vc insiste tanto em viver? Vc já se perguntou se o outro quer?Se quisesse a busca aconteceria sem vc fazer nada! Vc não cansa dessa luta, dessa dor? Vc sufoca as pessoas quando não permite que elas façam o que quando vc vê vc já fez! Por favor, eu te imploro... Fica na sua porra!”
Meu coração e sua defesa:
(olhando a mente como quem diz: vc não sabe o que diz):
“Não se pode mudar um sentimento como o amor.
Não se pode negar o amor.
A negação do amor só traz mais dor e solidão. Ah a solidão física, pois em mim (coração) a vida nunca deixou de sair, nunca.
Mesmo nos momentos mais difíceis como agora sempre esteve lá: pulsante, vibrante, intensa: viva! Mesmo antes de te conhecer assim como amor vc estava lá, me esperendo te descobrir.
Vc pode continuar enganando-se na sua morte anunciada, de nada vai adiantar, no último momento, no último esgar eu estarei lá para te provar que estou vivo e cheio.
Hoje cheio de dor. Misto de dor e amor.
Mas cheio, não mais de um do que do outro, mas cheio.”
terça-feira, 5 de junho de 2012
sem titulo
Eu me culpo. Ele me culpa. Ela me culpa.
Alguém longe que não me conhece também me culpa.
Alguém fica feliz quando o outro me culpa.
Eu me culpar já bastava por todos eles.
Todas as manifestações me causam dor, mas eu tenho que suportá-las como punições: eu mereço cada manifestação de vida como um corte na carne.
Portanto não deixe de viver, pois eu vou continuar morrendo por aqui.
Me pergunto até quando vou agüentar tanta dor. Alguém me vem com dito o popular:
“Você só recebe o que vc agüenta, o papo do frio conforme o cobertor...”
Pois eu prefiro a Fernanda Young tão claramente por mim:
“E é por tanto falar em morte que às vezes lembro que vivo.”
“ Pois a morte chega mais rápido para aqueles que aguardam o telefone tocar.”
Assinar:
Postagens (Atom)


