terça-feira, 17 de setembro de 2013

Pulsando, ainda.



Flor arrancada pela raiz. O cheiro da terra eternizado em suas mãos.
Choro arrancado do peito. Da dor mais intensa. Às vezes mudo. Às vezes em soluços.
Uma explosão de luz que cega, que fere e castiga os olhos.
Um corte profundo na pele. Que sangra. Que faz ver os ossos.
Um trote agarrado à crina. Um cavalgar com as mãos soltas implorando para cair.
Um medo infantil e aterrorizante. Um grito seco. Às vezes oco. Às vezes ensurdecedor.
Um amor que se mata aos pouquinhos... Bem lento... Ferindo ali onde ninguém mais conseguiu ou sabe ferir.
Uma morte plena. Um cheiro de morte. Um gosto de morte. Um desejo de morte.
Uma morte apenas. Um amor apenas. Um amor desprezado. Assassinado.
Mas que continua pulsando como as coisas que não se explicam: são.
Vivo mas morto. Pulsando, mas só de dor.
Um cancro eterno. Uma ferida que não cicatriza. Apenas um amor. Dessa e de outras vidas.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Balé no escuro.


A pele envelhece a passos largos e é com olhos tristes que a
acompanho envelhecer.  
Tantos adjetivos posso aqui citar, quantos toques,
perfumes  e  arrepios .
Cada um tem seu cheiro de pele, como um enigma
Que te desvenda quando no amor se faz suar.
O suor de quem se ama é doce.
É, eu tento, mas a Sra. Tristeza vem me sussurrar:
De todas as peles que senti.
Todas que beijei.
Todas que desenhei caminhos com minha língua.
Todas que com desejo toquei.
Nenhuma.
Nenhuma se compara a sua.
Pois a mistura da tua pele na minha é a receita certinha do amor.
Nossa engrenagem de peles roçando são o balé mais tenso, inebriado e lindo. Um balé no escuro onde a vibração de nossas peles é que nos faz encontrar.
A magia das peles infelizmente se desfaz quando duas peles que são apenas uma resolvem se rasgar.
E a lembrança da pele é nula, pois pele é tátil e exige ser tocada todos os dias.

Descobri que a pele amada envelhece devagar.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Árvore.

Telma Castilho

Telma Castilho


Seis da manha.
O sol já entra forte pela janela. Um cão late feliz no quintal do vizinho.
E os bem-te-vis acusadores fazem uma revoada bem próximo a minha janela:
Bem-te-vi! Bem-te-vi! Passarinho denunciador.
Mais uma noite insone.
Mais uma tentativa da minha mente agir racionalmente. Pensar racionalmente.
Inútil.
A dor não cessa. Sinto como se uma árvore gigante estivesse crescendo dentro de mim.
Os galhos dessa árvore tentam furar as paredes do meu peito.
As raízes cada vez mais grossas abrindo espaço, rasgando meu coração.
De repente uma lufada de vento leva as folhas da árvore para minha mente.
Rodopiam varrendo a minha tentativa de lucidez. E então a dor fica nítida. Tensa.
Como um doente que tenta esconder seu câncer fecho os olhos e tento dormir.  
Inútil.
Minhas lágrimas alimentam essa árvore. A nutrem com seu sal, com minha dor.
Eu juro que queria aceitar. Entender que essa árvore é muito mais forte que eu.
Muito mais viva. Mas meu espírito relutante e contestador luta e tenta mais uma vez: dormir.
Inútil.
A batalha recomeça com os primeiros raios de sol furando a cortina.
E a único pensamento racional que tenho é: tenho perdido todos os dias para a árvore. 



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Edward Weston

Esta escuro. Já não vejo.
Minha visão se guiava pelo horizonte da iris de seus olhos .
Silencio. Já não escuto.
Nem mesmo um estampido, um som oco. Nada.
Meus ouvidos eram nutridos pela música do teu arfar colado neles.
Minha boca esta seca.
Era seu beijo que me saciava.
Rins. Esôfago. Pulmões.
Todos gélidos. Sem ação.
Minhas mãos já não são mais artistas, sua melhor obra era pintar, esculpir, passear e
Desvendar o seu corpo.
Minha mente atrofiou. Vc a instigava alimentava e a tirava do limbo.
Meus pés estão plantados.
Não seguem a frente, tentam dar um passo atrás. Um só. E ... nada.
Pois se o futuro é mesmo o presente espichado já não há mais presente.
Vc fez as malas.

Não esta aqui. Agora.