sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sombra



É tanto silencio que sinto medo.
O silencio explica mesmo toda uma existência?
Caminhando pelas ruas procuro encontrar no rosto das pessoas estranhas
Alguma coisa boa. Um barulho. Um som. Poderia ser até um olá ou um sorriso
Cheio de sons.
Menos o silencio.
Como nada encontro entro no barulho dessa cidade louca que nos engole:
Carros, buzinas, crianças na rua, pessoas brigando, ônibus, mas de repente me
Perco no desenho bonito que o sol faz naquele sobrado novinho. Enche o sobrado de vida. Nunca ninguém morou lá. Nunca ninguém dormiu lá, ficou vendo TV ou na internet de bobeira.
O sobrado banhado de sol esta tão sozinho como eu.
Mas o sol não me aquece. Tem essa sombra gigante de árvore velha que me cobre do sol.
É a árvore da minha alma. Grande, frondosa, cheia de galhos de caminhos desconexos.
Enfim o silencio me toma novamente no delírio de me perder apreciando imagens.
Amo as imagens, continuo as fotografando na retina do olhar, a máquina?
Encostada na sombra de minha árvore-alma esperando... Esperando o que?
Esperando esse silencio passar. Esse dia passar. Essa dor de falta de som passar.
Um dia muito repleto de mim. E nem eu me agüento sozinha, sou demais até pra mim mesma.
Queria tanto ser sol, mas sou sombra. Sombra hoje fria.

domingo, 16 de setembro de 2012

Tardes ensolaradas de Domingo.



Com tanta coisa chata e absurdamente idiota para ler, apostilas,ah quantas apostilas!
Mas as tardes de sol intenso me provocam.. me seduzem e me entrego então: a Saramago... e como me arrepender? Impossível, sintam por que:
“No corredor penumbroso, a rapariga sentiu envolve-la a tepidez perfumada do ambiente.
- Queria pedir-lhe se me deixava telefonar para o escritório a dizer que não vou hoje.
- A vontade, Claudinha.
Empurrou-a docemente na direção do quarto. Maria Cláudia nunca ali entrava sem se perturbar. O quarto de Lidia tinha uma atmosfera que a entontecia.
Os móveis eram bonitos, como nunca vira, havia espelhos, cortinas, um sofá vermelho, um tapete felpudo no chão,frascos de perfume no toucador, um cheiro de tabaco caro , mas nada disto, isoladamente, era responsável pela sua perturbação.
Talvez o conjunto, talvez a presença de Lidia, qualquer coisa imponderável e vaga, como um gás que passa através de todos os filtros e que corrói e queima. Na atmosfera daquele quarto, perdia sempre o domínio de si mesma. Ficava tonta como se tivesse bebido champanhe, com uma irresistível vontade de fazer tolices.
- Sente-se, Claudinha! Aí mesmo na beira da cama.
Com as pernas a tremer, sentou-se. Pousou a mão livre sobre o édredon forrado de cetim azul e, sem que desse por isso, pôs-se a
afagar o tecido acolchoado, quase com volúpia. Lidia parecia desinteressada. Abrira uma caixa de cigarros e acendera um Camel.
Não fumava por vício ou por necessidade, mas o cigarro fazia parte de uma complicada rede de atitudes, palavras e gestos, todos como o mesmo objetivo: impressionar.
Isso, em si,já se transformara numa segunda natureza: desde que estivesse acompanhada e fosse qual fosse a companhia, trataria de impressionar.
O cigarro, o riscar lento do fósforo, a primeira baforada de fumo, longa e sonhadora, tudo eram cartas do jogo.
- Bem, vou-me embora. E, mais uma vez, obrigada.
Subitamente, Maria Cláudia teve medo. Não havia de que ter medo, ao menos daquele medo físico e imediato, mas, de um momento para outro, sentiu uma presença assustadora no quarto. Talvez, a atmosfera, que há pouco apenas entontecia, se tivesse tornado, de repente, sufocante...”

Texto retirado em trechos do livro Clarabóia de José Saramago.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

200


Saiu como um choro contido.
Angustiado. Um nó na garganta.
Um aperto asfixiante no peito.
AS lágrimas silenciosas e doloridas carregavam
O cheiro doce do perfume escorrendo da face, adormecendo no peito.
Silenciosas para não competir com a música que eu sonhei como fundo para fazer amor.
É esse apego ao gasto: fazer-amor, sonhar os sonhos impossíveis, como o poeta-louco, sem culpa, sem cobranças, vivendo plenamente e com a liberdade dos loucos: deixando viver.
Um sonho? Uma utopia absurda e até infantil?
Pois eu sou totalmente absurda e infantil.
E por isso entendo seu esforço monumental em garantir poder ser você mesmo para pelo menos uma única pessoa.
Guerras solitárias. Heróis apaixonados por uma causa que ninguém acredita.
E a música recomeça. Lenta. E diz tudo mesmo sem uma única palavra.
Era assim que eu queria saber explicar: com som sem palavras, pois estas me traem, me enganam, me seduzem.
Ando fugindo das palavras inutilmente eu sei como fugir do que se esta enraizado no peito, tatuado com agulhas de amor imensurável, pintado com dores e gemidos e pleno de vida e de deixar viver.