Com tanta coisa chata e absurdamente idiota para ler, apostilas,ah quantas apostilas!
Mas as tardes de sol intenso me provocam.. me seduzem e me entrego então: a Saramago... e como me arrepender? Impossível, sintam por que:
“No corredor penumbroso, a rapariga sentiu envolve-la a tepidez perfumada do ambiente.
- Queria pedir-lhe se me deixava telefonar para o escritório a dizer que não vou hoje.
- A vontade, Claudinha.
Empurrou-a docemente na direção do quarto. Maria Cláudia nunca ali entrava sem se perturbar. O quarto de Lidia tinha uma atmosfera que a entontecia.
Os móveis eram bonitos, como nunca vira, havia espelhos, cortinas, um sofá vermelho, um tapete felpudo no chão,frascos de perfume no toucador, um cheiro de tabaco caro , mas nada disto, isoladamente, era responsável pela sua perturbação.
Talvez o conjunto, talvez a presença de Lidia, qualquer coisa imponderável e vaga, como um gás que passa através de todos os filtros e que corrói e queima. Na atmosfera daquele quarto, perdia sempre o domínio de si mesma. Ficava tonta como se tivesse bebido champanhe, com uma irresistível vontade de fazer tolices.
- Sente-se, Claudinha! Aí mesmo na beira da cama.
Com as pernas a tremer, sentou-se. Pousou a mão livre sobre o édredon forrado de cetim azul e, sem que desse por isso, pôs-se a
afagar o tecido acolchoado, quase com volúpia. Lidia parecia desinteressada. Abrira uma caixa de cigarros e acendera um Camel.
Não fumava por vício ou por necessidade, mas o cigarro fazia parte de uma complicada rede de atitudes, palavras e gestos, todos como o mesmo objetivo: impressionar.
Isso, em si,já se transformara numa segunda natureza: desde que estivesse acompanhada e fosse qual fosse a companhia, trataria de impressionar.
O cigarro, o riscar lento do fósforo, a primeira baforada de fumo, longa e sonhadora, tudo eram cartas do jogo.
- Bem, vou-me embora. E, mais uma vez, obrigada.
Subitamente, Maria Cláudia teve medo. Não havia de que ter medo, ao menos daquele medo físico e imediato, mas, de um momento para outro, sentiu uma presença assustadora no quarto. Talvez, a atmosfera, que há pouco apenas entontecia, se tivesse tornado, de repente, sufocante...”
Texto retirado em trechos do livro Clarabóia de José Saramago.
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