sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

CLARICE LISPECTOR.

                                                       Pedro Henb  



“Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar.
E se me achar esquisita, respeite também.
Até eu fui obrigada a me respeitar.
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."


INGMAR BERGMAN


“Em toda minha vida rezei só uma vez, implorando:
Me use, faça o que quiser de mim. Mas Deus nunca compreendeu que escravo tão forte e dedicado tinha em mim.
Por isso minha vida foi sem utilidade. Mas também é mentira.
Nós caminhamos, passo a passo, em direção as trevas.
A única verdade existente é esse movimento”

“Meu desejo foi sempre ter uma faca, um gume que pusesse á vista minhas vísceras, libertasse meu cérebro, meu coração.
Que me libertasse do que tenho aqui dentro,
Cortasse minha língua e meu sexo. Uma lâmina afiada que raspasse minha impureza.
Então aquilo a que chamamos espírito se libertaria deste cadáver sem significado.”

domingo, 26 de dezembro de 2010

Um conto de Natal.



Quando cursei a quinta serie fui estudar em um colégio dito de classe média. Era a primeira vez na minha vida estudantil que estava inserida neste universo.
No colégio anterior do qual estudei da primeira a quarta série meu universo era pura segurança: conhecia todos, desde funcionários até alunos de séries diferentes da minha, passava oito horas no colégio, ou seja era o meu universo. Meu universo seguro e confiante onde eu andava de cabeça erguida , sempre sorrindo, zombando aqui e ali dos mais queridos, já manifestando meu humor sarcástico que mais tarde me tornaria digamos: um pouco popular...
Enfim a mudança de colégio foi difícil para mim que até hoje tenho medo do novo, do que não conheço totalmente, do que não domino com segurança.
Minha espinha dorsal dobrou... Fiquei amiga dos pedregulhos do caminho, conhecia cada rachadura ou piso do chão do colégio...
Minha voz de tonalidade forte e volume totalmente audível tornaram-se um sussurro, como se pedisse perdão por estar falando... Para ajudar esta fase coincidiu com a fase das espinhas no rosto... Então vieram os cruéis e diários apelidos... Céus como me permiti sofrer com eles...
Foi um longo semestre, mas toda dor um dia tem seu fim e decidindo que não passaria outro semestre de cabeça baixa, me alimentei de todas as forças que havia enterrado toda a segurança e presunção e expus no primeiro dia de aula após as férias de julho meu rosto, coberto de espinhas sim, mas com um olhar desafiador! Ah eu sei sim causar medo!
E o destino conspirou a meu favor: a professora de português informou que haveria um concurso no colégio de redações e que os três primeiros colocados poderiam escolher 5 prêmios. Era minha chance! A grande chance de mostrar aqueles burgueses vazios do que era feita a minha essência juvenil!
E escrevi meu primeiro conto de Natal, sim apesar de estarmos em agosto.
Eu queria emocionar. E consegui. A todos.
Escrevi um conto de Natal que falava da beleza do Natal, que contava a história do Natal de um menino pobre, que fazia seus brinquedos com batatas, mas permitia-se ser feliz dentro da sua simplicidade, foi como diria meu pai: um tapa com luvas de pelica.
Foi a primeira vez que senti a força da palavra escrita, a qual poderosa poderia ser essa arma que eu manuseava com tanta destreza...
Foi daí que decidi por jornalismo anos mais tarde.
Enfim, hoje muitos anos depois, estou aqui novamente para falar sobre o Natal.
Existiu outra fase na minha vida em que eu aproveitava ao máximo o Natal simplesmente para abraçar! Sou de uma família de quatro irmãos, e como todas as famílias que se dissolvem naturalmente para formar suas próprias famílias eu encontrava muito raramente meus irmãos, e o Natal era um desses encontros.
Por vários anos consecutivos foi a única maneira de abraçar meu irmão.
Algumas vezes procurava em vão e no desespero utópico dizer-lhe através do abraço o quanto eu o amava e o quanto sentia sua falta... Mas nada neste sentido supre as palavras, e sem entender por que existiu entre-nos uma mudez acordada nas entrelinhas do sentimento.
Ficava me perguntando o porquê ele estaria tão magoado comigo e... Abraçava...
Minha mãe também fazia parte das pessoas que eu abraçava só no Natal.
Lembro-me de um dia quando eu era muito criança, corri para a cozinha e a abracei pelas costas, chegando no máximo a alcançar suas pernas e a mesma ralou comigo, dizendo-me que não gostava de abraços, beijos... E fosse me ocupar de algo mais útil, que a cozinha era seu território e eu ali só atrapalhava...
Talvez venha daí minha inaptidão culinária, pois depois deste dia evitei não somente a cozinha como o território do carinho com minha mãe.
E novamente o Natal era o motivo para abraçar.
Quando faltavam os minutos para finalmente o dia 25 nascer meu coração já não suportava tanta ansiedade... ah quantos abraços guardados esperando um só!
Este texto vem, por favor, pedir a vocês que não esperem o Natal para abraçar alguém...
Que um abraço apesar de não suprir as palavras pode ser unido a elas.
Abrace e fale. No pé do ouvido. Uma confissão entre você e a pessoa que você ama. E abrace forte, coloque em seu abraço todas as suas emoções, abrace com entrega, sem restrições, não sinta medo de ser rejeitado ou se o abraço correspondido não vier na mesma intensidade que o seu, persista, abrace mais forte, como se neste gesto você possa tirar toda a resistência da pessoa abraçada, todo o medo de entregar-se a seu abraço.
E experimente abraçar até quem você não conhece tanto!
Outro dia abracei uma moça simplesmente por ela ter tirado um filhote de cachorro da rua... e acreditem ela recebeu meu abraço com uma alegria mágica. 
Abraçar vai torná-lo uma pessoa melhor, acreditem. como uma força capaz de conseguir fazer a paz mundial. Utopias e meu lado poético a parte, faça esse bem por você, por quem receber seu abraço e por mim, que lhe peço com toda segurança e presunção.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O Impossivel.

 Quem dera pudéssemos nos apaixonar toda semana.
Esperamos sempre que o nosso amor suporte tudo,
E o amor não tem que suportar tudo.
“No verdadeiro amor deve caber o impossível.”

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Brisa Leve II

A Brisa ainda permanece leve porem agora é continua e não mais furtiva em pequenos redemoinhos.
O café permanece forte, mas seu aroma agora é perturbador, invade os ambientes, os lugares públicos, as praças, os cinemas, as almas...
As sensações de arrepio agora se materializam em imagens, gestos leves, mas precisos.
O corpo não ousa somente responder aos estímulos que chegam de todos os lugares simplesmente e com prazer: obedece.
A alma, ah a alma já totalmente tomada foi astuciosamente conquistada confia de olhos vendados e lábios apertados pressentindo o que vem depois.
O cheiro ocre é parte do que sou agora.
Totalmente dependente desta maliciosa droga.
Acordo,vivo, morro em alguns dias sempre consumida pelo cheiro ocre colado nas paredes do meu eu.
A este vinho brindo a coragem de bebê-lo e já não termina pegando pois corre junto em minhas veias. 

sábado, 4 de dezembro de 2010

O lugar.




No lugar é bom que se tenha uma ampla janela sem grades que emoldure um bom pedaço de céu, para que eu possa ver as nuvens deslizando pelo céu azul ou mesmo a força dos pingos de chuva.
No lugar é bom que se tenha sempre que possível um café forte a mão, que seu preparo seja descomplicado e que o aroma entre pelos pulmões sem pedir permissão, que a caneca onde seja servido seja grande e grossa.
O café é uma das bebidas que mais gosto.
No lugar é bom que tenha uma rede para as tardes preguiçosas de verão.
Uma rede grande, azul de preferência (adoro a cor azul) onde possam confortavelmente deitar dois corpos.
No lugar é bom que se tenha muitos livros de diversos assuntos guardados ou espalhados ou até mesmo empilhados em uma ordem secreta que só quem os lê entenda.
No lugar é bom que se tenha poucos moveis para que se possa correr de uma planejada travessura.
No lugar é bom que se tenha um mossô, pois estes crescem de forma desconexa, torta e linda como as histórias da vida.
No lugar é bom que o vento habite freqüentemente para que o uso de poucas roupas se torne um hábito agradável, mas é bom que exista também um tapete para as noites frias e nestas noites troca-se (somente nestas) o café por um cremoso chocolate quente.
 No lugar é bom que se tenha um canto preparado para conversas, curtas ou longas, sérias ou sem nenhuma intenção a não ser a bubuia das palavras.
No lugar é bom que se tenha um pequeno jardim com girassóis para as borboletas brincarem e voltarem sempre.
No lugar não podem entrar gritos, medos ou brigas.
Que as pessoas sintam que é bom lugar, onde habita o amor simples, os gestos simples, o ser simples e que todos se sintam tão à vontade e com o coração leve que ali não seja possível e nem necessário mentir.
Vamos então ao poucos fazer esse lugar existir, transformar o nosso lugar neste lugar.
No espaço físico e no recanto da alma.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Um mundo paralelo entregue a voce.




É necessário que se explique.
Viver com quem tem esse amor compulsivo por escrever não é tarefa das mais simples.
Á vc pessoa que se candidata a esta tarefa vou tentar facilitar aqui alguns passos.
É necessário que exista realmente muito amor, amor daqueles bons, raros e legítimos.
Quem se propõe a amar e viver com esses “escrivinhadores” de plantão tem que abrir mão de, por exemplo, do sentimento tão associado ao amor: o ciúme.
Pois a alma do escritor é livre, repleta de personagens, histórias, lugares imaginados e outros relembrados e não cabem as perguntas: Mas quem é essa? ou: Mas vc já esteve neste lugar? Ou pior: Mas isso aconteceu mesmo?
Pecados mortais para esses sonhadores vorazes.
A pessoa que ama os escritores tem que ter consciência de que na cama existem: três.
Que existe um mundo paralelo vivenciado no mundo real, é que às vezes um olhar perdido, ou focado em um papel ou computador não seja falta de atenção e sim: alimento.
Não ouse questionar no meio deste devaneio criador onde estamos escrevendo, como costumo dizer: no caderno rascunhado do pensamento, perguntando se esta tudo bem.
Se estivermos criando tudo esta bem...
Isso leva a outra ponta do novelo: as longas fases mornas, frias onde nada é capaz de preencher o papel, que angustia!
Á de se ter muita paciência.
No entanto não são somente pesares destinados aos escolhidos á amar essas pessoas tão diferentes, não... e as compensações são muitas. Por exemplo, esteja preparado para nunca existir rotina, a doença que mata a maioria dos casais, pode ter certeza de que será inundado pelas paixões do momento: o personagem, a nova história, as cores, os quadros, as maneiras pesquisadas, os lugares encontrados...
Correndo o delicioso risco de ser talvez uma musa inspiradora!
Um mundo realmente paralelo entregue a vc ser amado sem restrições, uma imaginação incansável, amantes vorazes e sem restrições.
Com exceção ao deslumbramento se o lugar for uma livraria ou um sebo, aí tenha paciência novamente...
Mas insista caro candidato, afinal amar a quem tem a escrita na alma é com certeza amar plenamente por todos os sentidos criados e não criados.