domingo, 26 de dezembro de 2010

Um conto de Natal.



Quando cursei a quinta serie fui estudar em um colégio dito de classe média. Era a primeira vez na minha vida estudantil que estava inserida neste universo.
No colégio anterior do qual estudei da primeira a quarta série meu universo era pura segurança: conhecia todos, desde funcionários até alunos de séries diferentes da minha, passava oito horas no colégio, ou seja era o meu universo. Meu universo seguro e confiante onde eu andava de cabeça erguida , sempre sorrindo, zombando aqui e ali dos mais queridos, já manifestando meu humor sarcástico que mais tarde me tornaria digamos: um pouco popular...
Enfim a mudança de colégio foi difícil para mim que até hoje tenho medo do novo, do que não conheço totalmente, do que não domino com segurança.
Minha espinha dorsal dobrou... Fiquei amiga dos pedregulhos do caminho, conhecia cada rachadura ou piso do chão do colégio...
Minha voz de tonalidade forte e volume totalmente audível tornaram-se um sussurro, como se pedisse perdão por estar falando... Para ajudar esta fase coincidiu com a fase das espinhas no rosto... Então vieram os cruéis e diários apelidos... Céus como me permiti sofrer com eles...
Foi um longo semestre, mas toda dor um dia tem seu fim e decidindo que não passaria outro semestre de cabeça baixa, me alimentei de todas as forças que havia enterrado toda a segurança e presunção e expus no primeiro dia de aula após as férias de julho meu rosto, coberto de espinhas sim, mas com um olhar desafiador! Ah eu sei sim causar medo!
E o destino conspirou a meu favor: a professora de português informou que haveria um concurso no colégio de redações e que os três primeiros colocados poderiam escolher 5 prêmios. Era minha chance! A grande chance de mostrar aqueles burgueses vazios do que era feita a minha essência juvenil!
E escrevi meu primeiro conto de Natal, sim apesar de estarmos em agosto.
Eu queria emocionar. E consegui. A todos.
Escrevi um conto de Natal que falava da beleza do Natal, que contava a história do Natal de um menino pobre, que fazia seus brinquedos com batatas, mas permitia-se ser feliz dentro da sua simplicidade, foi como diria meu pai: um tapa com luvas de pelica.
Foi a primeira vez que senti a força da palavra escrita, a qual poderosa poderia ser essa arma que eu manuseava com tanta destreza...
Foi daí que decidi por jornalismo anos mais tarde.
Enfim, hoje muitos anos depois, estou aqui novamente para falar sobre o Natal.
Existiu outra fase na minha vida em que eu aproveitava ao máximo o Natal simplesmente para abraçar! Sou de uma família de quatro irmãos, e como todas as famílias que se dissolvem naturalmente para formar suas próprias famílias eu encontrava muito raramente meus irmãos, e o Natal era um desses encontros.
Por vários anos consecutivos foi a única maneira de abraçar meu irmão.
Algumas vezes procurava em vão e no desespero utópico dizer-lhe através do abraço o quanto eu o amava e o quanto sentia sua falta... Mas nada neste sentido supre as palavras, e sem entender por que existiu entre-nos uma mudez acordada nas entrelinhas do sentimento.
Ficava me perguntando o porquê ele estaria tão magoado comigo e... Abraçava...
Minha mãe também fazia parte das pessoas que eu abraçava só no Natal.
Lembro-me de um dia quando eu era muito criança, corri para a cozinha e a abracei pelas costas, chegando no máximo a alcançar suas pernas e a mesma ralou comigo, dizendo-me que não gostava de abraços, beijos... E fosse me ocupar de algo mais útil, que a cozinha era seu território e eu ali só atrapalhava...
Talvez venha daí minha inaptidão culinária, pois depois deste dia evitei não somente a cozinha como o território do carinho com minha mãe.
E novamente o Natal era o motivo para abraçar.
Quando faltavam os minutos para finalmente o dia 25 nascer meu coração já não suportava tanta ansiedade... ah quantos abraços guardados esperando um só!
Este texto vem, por favor, pedir a vocês que não esperem o Natal para abraçar alguém...
Que um abraço apesar de não suprir as palavras pode ser unido a elas.
Abrace e fale. No pé do ouvido. Uma confissão entre você e a pessoa que você ama. E abrace forte, coloque em seu abraço todas as suas emoções, abrace com entrega, sem restrições, não sinta medo de ser rejeitado ou se o abraço correspondido não vier na mesma intensidade que o seu, persista, abrace mais forte, como se neste gesto você possa tirar toda a resistência da pessoa abraçada, todo o medo de entregar-se a seu abraço.
E experimente abraçar até quem você não conhece tanto!
Outro dia abracei uma moça simplesmente por ela ter tirado um filhote de cachorro da rua... e acreditem ela recebeu meu abraço com uma alegria mágica. 
Abraçar vai torná-lo uma pessoa melhor, acreditem. como uma força capaz de conseguir fazer a paz mundial. Utopias e meu lado poético a parte, faça esse bem por você, por quem receber seu abraço e por mim, que lhe peço com toda segurança e presunção.

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