quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Árvore.

Telma Castilho

Telma Castilho


Seis da manha.
O sol já entra forte pela janela. Um cão late feliz no quintal do vizinho.
E os bem-te-vis acusadores fazem uma revoada bem próximo a minha janela:
Bem-te-vi! Bem-te-vi! Passarinho denunciador.
Mais uma noite insone.
Mais uma tentativa da minha mente agir racionalmente. Pensar racionalmente.
Inútil.
A dor não cessa. Sinto como se uma árvore gigante estivesse crescendo dentro de mim.
Os galhos dessa árvore tentam furar as paredes do meu peito.
As raízes cada vez mais grossas abrindo espaço, rasgando meu coração.
De repente uma lufada de vento leva as folhas da árvore para minha mente.
Rodopiam varrendo a minha tentativa de lucidez. E então a dor fica nítida. Tensa.
Como um doente que tenta esconder seu câncer fecho os olhos e tento dormir.  
Inútil.
Minhas lágrimas alimentam essa árvore. A nutrem com seu sal, com minha dor.
Eu juro que queria aceitar. Entender que essa árvore é muito mais forte que eu.
Muito mais viva. Mas meu espírito relutante e contestador luta e tenta mais uma vez: dormir.
Inútil.
A batalha recomeça com os primeiros raios de sol furando a cortina.
E a único pensamento racional que tenho é: tenho perdido todos os dias para a árvore. 



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