| Telma Castilho |
| Telma Castilho |
Seis da manha.
O sol já entra forte pela janela. Um cão late feliz no quintal do
vizinho.
E os bem-te-vis acusadores fazem uma revoada bem próximo a minha
janela:
Bem-te-vi! Bem-te-vi! Passarinho denunciador.
Mais uma noite insone.
Mais uma tentativa da minha mente agir racionalmente. Pensar
racionalmente.
Inútil.
A dor não cessa. Sinto como se uma árvore gigante estivesse crescendo
dentro de mim.
Os galhos dessa árvore tentam furar as paredes do meu peito.
As raízes cada vez mais grossas abrindo espaço, rasgando meu coração.
De repente uma lufada de vento leva as folhas da árvore para minha
mente.
Rodopiam varrendo a minha tentativa de lucidez. E então a dor fica nítida.
Tensa.
Como um doente que tenta esconder seu câncer fecho os olhos e tento
dormir.
Inútil.
Minhas lágrimas alimentam essa árvore. A nutrem com seu sal, com minha
dor.
Eu juro que queria aceitar. Entender que essa árvore é muito mais forte
que eu.
Muito mais viva. Mas meu espírito relutante e contestador luta e tenta
mais uma vez: dormir.
Inútil.
A batalha recomeça com os primeiros raios de sol furando a cortina.
E a único pensamento racional que tenho é: tenho perdido todos os dias
para a árvore.
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