quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Noite Artificial.




Sou a vilã desse filme cult.
A agressiva e sanguinária vilã de Tarantino.
A sedutora vilã de Almodovar.
A incontestável e insólita vilã de Woody Allen.
Meu crime: amar a qualquer custo.
Presa nas grades da sua indiferença, culpada por sentir e expor minhas armas de amor.

Declarado o amor, expresso no olhar da moça no quadro, olhar ao longe, olhar de êxtase.
Olhar de orgasmo á pinceladas azuis.
Deflagrado na mão caída em repouso entre as pernas da mulher sentada na cadeira desenhada a traços inseguros e lindos. Como um quadro de Lautrec com suas putas sedutoras, é necessário coragem para sustentar o olhar.
Pintado o amor ali, nos grandes e irregulares olhos de Picasso, na perturbação interna e quente das cores.
Ame ou fuja.
Musa o caralho! Eu sou vilã!
A culpa é semente hereditária em meu ventre; a culpa que gera câncer e as células já se alastram em sintomas: medo, saudade, desejo, necessidade, pele,olho,cheiro, gosto.

O gosto.
Procuro teu gosto em mim, como uma cadela investigo cada pequeno pedaço que ainda possa ter um vestígio.
Minha mente de vilã estuda maneiras de não chorar,pelo menos hoje.
Mergulho novamente na noite artificial, as salas de cinema tem sido meu refugio, a grande tela branca bate em meus olhos como um flash, nesse pequeno tempo deslumbro tua boca.
Os cúmplices expectadores do meu crime parecem não me ver,ser desprezível e ignorado, 

fico ali sozinha em minha fileira de cadeiras que carregam suores de amor, medo,angustia,
solidão ( como a minha ), leio todos os nomes, escuto até o fim a última música, 
e me pergunto: Porque as pessoas correm quando acaba o filme?
Fogem no escuro ainda, talvez com receio de serem flagradas, elas também,

tão vilãs como eu: amante assumida da sétima arte e de todas as suas partes: boca,
olho, pelo, pé, umbigo,dedos,sexo. A moça da limpeza leva garrafas de água, latas de refrigerante
e a pequena garrafa de vinho que esvaziei no clímax do filme.
Seu olhar é de censura e dúvida: Quando você vai sair?
Sinto-me nostálgica, com saudades do tempo em que se podia assistir duas,

três sessões seguidas pagando apenas a primeira.
Não tenho vontade de levantar e sair, na noite artificial meus pecados de vilã são aceitos.

A luz fria e forte da rua vai me despir novamente e me culpar novamente, pelo menos até a próxima sessão.

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