domingo, 3 de agosto de 2014

Olhos de Rima.



Berta Vicente Salas


A musica não dizia olhos de rima.
Na confusão da minha mente psicodélica e triste eu entendi assim:
olhos de rima.
Esses sim nunca mentiram pra mim, mesmo que todas as palavras ditas
e escritas tenham mentido, mesmo que o corpo fez o gesto bruto de abandono: Virou as costas e foi sem olhar pra trás, eu sei por que fiquei ali parada
no centro da cidade olhando, o frenesi agitado dos vendedores ambulantes,
as buzinas histéricas dos motoristas, o short curto demais da moça,
os olhos cobiçosos do rapaz na moça, tudo isso paralisou para que eu que 
ansiosa esperasse você virar. Tudo em você sempre fugiu.
Seus olhos de rima jamais. Eles me contavam de todo o seu amor.
Pois é, eu sei, eu disse que tinha esquecido como era lê-los, mas não esqueci... Eu também menti e fugi. Fugitivos covardes de um amor. Temos nossos rostos colados nos postes
da Rua Augusta: Recompensa Generosa. Coração Doente desde a fuga. Culpados são da falta total de coragem de amar. Sua opção: matar. A minha: deixar morrer. Mas os olhos de rima, mesmo que capturados pelas lentes da câmera
continuam lá a sangrar a verdade: você não matou, eu não deixei morrer. Como é difícil mudar ou morrer. Como é difícil ser corajoso na vida e no amor. Eu não mudo quando deixo o gozo escorrer pelas coxas e chamo seu nome. Eu não morro quando inconscientemente rasgo o papel virgem com estas palavras
por você novamente, como se só soubesse escrever você. Fugitivos de nós mesmos vamos procurando não nos esbarrar na grande cidade solitária. Às vezes o destino malicioso me faz sair de lugares que você acabou de entrar, como sei? Seus olhos de rima... eles nunca mentem para mim.


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